Desfibrilando quem?
O lamentável episódio envolvendo o jogador de futebol Serginho, do São Caetano, provocou intensos debates. Na semana passada foi o tema dominante em TVs, rádios e jornais. Mais do que discutir possíveis omissões de médicos e dirigentes do clube, uma possível opção do jogador por colocar sua própria vida em risco para garantir o salário que garantia a família, o debate focava principalmente a possibilidade de salvamento do jogador se houvesse um desfibrilador portátil disponível no estádio no momento da parada cárdiorespiratória que ele sofreu. Realmente choca a idéia de que um profissional do esporte, bem nutrido, assistido por médicos, fisioterapeutas e outros profissionais possa ter uma morte súbita como aquela. Pareceu-me morte estúpida, mais do que morte súbita.
Mas fiquei também chocado com a decisão, quase unânime, de comentaristas de futebol, locutores esportivos, médicos do esporte e palpiteiros de plantão sobre a necessidade de se colocarem desfibriladores na lateral do campo de futebol e treinar árbitros e bandeirinhas para usarem esse equipamento que, nos aeroportos dos Estados Unidos você encontra a praticamente cada 100 metros. O meu espanto não é porque eu seja contra salvar vidas de atletas. É que fiquei pensando em milhares de torcedores que já morrerram em estádios de futebol, muitos deles mal nutridos e "clientes" do SUS, porque não havia ali um desfibrilador. E nada jamais foi feito por conta dessas pobres vidas. E fiquei pensando em muitos outros que ainda morrerão nesses estádios, por falta de socorro, enquanto numa mesa na lateral do campo, talvez perto do 4o. árbitro, repouse em paz um desfibrilador que poderia salvar suas vidas, as vidas de quem, ao final, faz acontecer o grande espetáculo do futebol, o torcedor.
Escrito por Simão Pedro às 15h59
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