O professor raramente via o reitor, de modo que ficou surpreso quando, uma manhã, chamaram-no à reitoria. Sem demora foi lá, e ali estava o reitor, um homem alto, sisudo. Fê-lo sentar e anunciou, sem rodeios:
- Recebemos uma grave denúncia contra o senhor. Fomos informados de que o senhor tem o título de doutorado. E o senhor sabe que nossa quota de doutores já foi ultrapassada, de modo que teremos de demiti-lo.
O professor protestou: não sabia do que o reitor estava falando. Seu título era de mestrado, e era como mestre que havia sido contratado.
- Neste caso -disse o reitor - como é que o senhor explica isto aqui?
Abriu uma gaveta e de lá sacou uma publicação encadernada em verde. Ao vê-la, o professor estremeceu: era sua tese de doutorado, apresentada em uma universidade distante. O segredo que ele imaginara razoavelmente preservado agora tornava-se público, graças, provavelmente, a algum desafeto.
Em prantos, disse que aquilo fora o resultado de um ato impensado, tresloucado mesmo:
- Quando dei por mim estava escrevendo esta tese. Simplesmente não pude me conter. Por favor, perdoe-me. Prometo que não vou pedir gratificação de doutorado, prometo.
O reitor concordou: daria uma chance. Mas, a qualquer menção de doutorado ou de pós-doutorado, o professor estaria na rua.
Ele agradeceu, muito aliviado. Em sinal de gratidão, pensa até em renunciar ao mestrado.