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A burrice humana, na visão de um gênio

"Apenas duas coisas são infinitas: o universo e a burrice humana. E eu não tenho certeza sobre a primeira."
Albert Einstein (1879-1955)
Escrito por Simão Pedro às 11h36
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E no Jardim do Éden da Câmara ...
Enquanto o povo rala para pagar impostos, farreiam os seus "representantes", chefiados por Severino Lampião, aquele que quer fazer butim ao "tesouro do povo", custe o que custar. Desde que nada custe a ele, nem a seus familiares, empregados - e bem - porque têm diploma de curso superior.
E nos lembremos que a farra é feita com o meu, o seu, o nosso dinheirinho. Que também paga os salários dos diplomados de Severino Lampião.
A charge que reproduzo, abaixo, foi publicada na Folha, ontem.

Escrito por Simão Pedro às 13h03
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Crime e castigo - Moacyr Scliar
O texto "O escândalo dos doutores" faz referência a uma crônica de Moacyr Scliar publicada também pela Folha de São Paulo, em 17 de janeiro de 2005. Transcrevo a crônica.
Crime e castigo Moacyr Scliar
Crime Por custarem mais caro às instituições, universitários com título de doutorado estão sendo demitidos. Cotidiano, 10.jan.2005
O professor raramente via o reitor, de modo que ficou surpreso quando, uma manhã, chamaram-no à reitoria. Sem demora foi lá, e ali estava o reitor, um homem alto, sisudo. Fê-lo sentar e anunciou, sem rodeios: - Recebemos uma grave denúncia contra o senhor. Fomos informados de que o senhor tem o título de doutorado. E o senhor sabe que nossa quota de doutores já foi ultrapassada, de modo que teremos de demiti-lo. O professor protestou: não sabia do que o reitor estava falando. Seu título era de mestrado, e era como mestre que havia sido contratado. - Neste caso -disse o reitor - como é que o senhor explica isto aqui? Abriu uma gaveta e de lá sacou uma publicação encadernada em verde. Ao vê-la, o professor estremeceu: era sua tese de doutorado, apresentada em uma universidade distante. O segredo que ele imaginara razoavelmente preservado agora tornava-se público, graças, provavelmente, a algum desafeto. Em prantos, disse que aquilo fora o resultado de um ato impensado, tresloucado mesmo: - Quando dei por mim estava escrevendo esta tese. Simplesmente não pude me conter. Por favor, perdoe-me. Prometo que não vou pedir gratificação de doutorado, prometo. O reitor concordou: daria uma chance. Mas, a qualquer menção de doutorado ou de pós-doutorado, o professor estaria na rua. Ele agradeceu, muito aliviado. Em sinal de gratidão, pensa até em renunciar ao mestrado.
Escrito por Simão Pedro às 12h05
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O escândalo dos doutores - Parte 2
O escândalo dos doutores [continuação]
O mínimo necessário
Da mesma forma, os diplomas de nível médio
deveriam ser mais valorizados, melhorando o conteúdo dos cursos que os conferem
e desmistificando a idéia de que somente o diploma universitário conduz a um
futuro mais promissor. Inúmeros alunos de escolas particulares, sobretudo nos
cursos noturnos, não têm condições -nem desejam- de fazer mais do que o mínimo
necessário para obter um diploma. Por que os iludir, fazendo-os crer que, ao
terminar um curso de quarta categoria, estarão dando o salto para o sucesso
profissional? Não seria mais digno e mais honesto reconhecer que um curso
médio consistente teria mais efeito, com um custo muito menor de tempo e de
dinheiro? Mas isso implicaria reconhecer de público o que todos sabem:
inúmeras faculdades particulares têm por objetivo principal o enriquecimento dos
seus proprietários, e, para alcançá-lo, estão dispostas a vender um serviço de
qualidade pavorosa. O nível do que ali é ensinado só não é pior devido à
dedicação de muitos professores, que consideram sua missão utilizar a disciplina
que lecionam, mesmo que seja de cunho "técnico", para formar, na parca medida do
possível, o espírito dos seus alunos. É indigno que seus empregadores faturem
milhões economizando tostões. Para terminar, uma sugestão concreta: que, no
projeto de reforma universitária atualmente em debate, sejam introduzidos
dispositivos que favoreçam a maior capacitação do corpo docente, usando os
tradicionais instrumentos empregados pelos cavaleiros para fazer andar suas
montarias -a cenoura e o chicote. Cenoura: vantagens aos cursos que tenham
maior proporção de professores titulados; chicote: sanções disciplinares e
monetárias (provavelmente as únicas eficazes, nesse território) contra os que, a
cada ano, não aumentarem aquela proporção até chegarem a um nível aceitável de
titulados -por exemplo, 50% de mestres e 30% de doutores. Quem sabe, ameaçando
mexer no bolso dos empresários do ensino, o escândalo da "discriminação dos
doutores" venha a se tornar mais uma das vergonhosas lembranças que o Brasil
esconde nos desvãos da sua memória. Por enquanto, ele é uma chaga aberta e fede
a gangrena.
Escrito por Simão Pedro às 11h50
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O escândalo dos doutores - Parte 1
O texto foi publicado no Caderno Mais! da Folha de São Paulo de
hoje. È longo, mas vale a pena ler e guardar. Como o blog
tem limite de caraacteres, tive que dividir o texto em duas
partes. O autor do é Renato Mezan, colunista da Folha, professor
titular da PUC-SP e autor de "Freud - A Trama dos Conceitos" (Perspectiva),
entre outros livros.
O escândalo dos doutores Demissão ou
não-contratação de profissionais qualificados por parte das universidades
particulares aponta para o descalabro da educação no Brasil, regida pela
concepção do ensino como mercadoria
Abro meu e-mail e deparo com uma chamada intrigante: "A PUC-SP [Pontifícia
Universidade Católica] não discrimina doutores". Quem envia a mensagem é a
Assessoria de Comunicação Institucional (Acipuc): para meu espanto, fico sabendo
que muitas faculdades particulares se recusam a contratar professores com título
de doutor ou, mesmo, os despedem logo após a defesa. E por quê? Porque um doutor
ganha alguns reais a mais que um mestre, e, este, mais do que um bacharel,
licenciado ou especialista. Dia seguinte: encontro na Ilustrada uma crônica
de Moacyr Scliar, "Crime e Castigo". O coordenador está passando uma
descompostura no professor, cuja freqüência a um curso de pós-graduação acaba de
ser descoberta: como ousa ele fazer tamanha bobagem? E dá-lhe ameaças! O
professor, atônito, concorda em desistir da pós ou, pelo menos, manter secreto o
seu título quando o obtiver -qualquer coisa, desde que não perca o
emprego.
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Os alunos que se danem: desde que paguem suas mensalidades, o que menos
importa é a qualidade do que for ensinado
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Conversas com colegas me fazem ver que o assunto não é, como havia pensado,
uma piada de mau gosto. A "discriminação contra os doutores", por motivos que
beiram o ridículo -mais R$ 10 por hora-aula-, na maioria das vezes é um dos
escândalos mais grotescos que encontramos nesse amontoado de aberrações em que
se converteu o ensino superior pago neste país. Custa a crer que o
aperfeiçoamento de um professor seja causa de demissão ou de não-contratação; no
entanto é o que vem acontecendo em inúmeras escolas particulares. Aqueles com
quem conversei a respeito estão receosos; temem ser postos no olho da rua se
forem identificados. Mas suas experiências são "amargas", como me disse um
deles. Não basta, contudo, esfregarmos os olhos e nos indignarmos com esse
absurdo. É preciso refletir sobre o que ele significa, sobre o descalabro que se
instalou no setor pago do ensino superior. O paradoxo torna-se ainda maior se
lembrarmos que, nas últimas décadas, órgãos como o CNPq [Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico], a Capes [Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior] e a Fapesp [Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo] aplicaram centenas de milhões de reais em
bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado, visando à capacitação do pessoal
docente e, por extensão, à melhoria do nível de ensino no país. Apenas uma
fração dos que obtêm esses títulos podem ser absorvidos pelas universidades
públicas ou por escolas particulares que valorizam a titulação, como as PUCs,
FGVs e algumas (poucas) outras. Quando o recém-doutor envia seu currículo ou vai
fazer uma entrevista, descobre que seu título depõe contra ele, que está
"overqualified"... Sabemos que, para credenciar um curso, o Ministério da
Educação exige, entre outras coisas, uma certa cota de doutores e mestres no
corpo docente; mas essa cota muitas vezes não é observada ou, quando o é,
portadores de certificados de especialização (curso no qual não é preciso
redigir uma tese) contam como mestres. Credenciado o curso, as verificações são
esparsas e complacentes, aceitando-se explicações esfarrapadas para a
insuficiência de pessoal titulado. Estamos diante de uma concepção do ensino
como mercadoria e da mão-de-obra que produz essa mercadoria como fator meramente
quantitativo, cujos custos devem ser mantidos no patamar mais baixo
possível. A educação superior está estruturada como uma pirâmide: os alunos
da graduação são educados por alguém que já concluiu seus estudos universitários
e que busca na pós-graduação um complemento para avançar na carreira. O
título deveria ser um diferencial capaz de decidir uma contratação, como é nos
concursos, mas se verifica o oposto: contanto que sejam preenchidas as
horas-aula, é mais lucrativo pagar menos e selecionar um professor que tenha
apenas bacharelado, argumentando que a "cota" de titulados (10%, no caso dos
doutores) já está preenchida. E os alunos que se danem: desde que paguem suas
mensalidades, o que menos importa a quem lhes vende um diploma é a qualidade do
que for ensinado. Todos conhecemos "universidades" em que, como nos clubes, para
entrar no campus se passa um cartão pela catraca; basta estar intramuros, ainda
que na lanchonete ou no cabeleireiro, para "ter presença" e não "estourar em
faltas".
Conhecimento novo
A miopia dos donos dessas arapucas tem um componente de ganância e outro de
ignorância, esta a respeito da diferença entre um doutor e um mestre. Um doutor
não é apenas um mestre que escreveu mais uma tese; pelas regras da academia, ele
pode orientar candidatos a ambos os títulos porque é um especialista em sua área
e cujo trabalho foi avaliado publicamente por uma banca na qual pelo menos dois
componentes devem ser de outra instituição. Não estou idealizando o valor de
um título: todos sabemos que há teses melhores e piores, departamentos mais
exigentes ou menos. Mas é lícito supor que alguém que passou pelo duro teste de
duas defesas de tese só pode enriquecer o curso de graduação em que vier a dar
aulas. Outro equívoco que precisa ser dissipado diz respeito ao "binômio
ensino e pesquisa". Sem querer desqualificar a atividade de pesquisador,
deveríamos reconhecer que muitos professores, titulados ou não, não possuem
vocação para produzir conhecimento novo, que é o que significa no sentido
acadêmico a palavra "pesquisa". Seu talento é transmitir o conhecimento já
existente, algo tão necessário quanto pesquisar, especialmente nos cursos de
graduação, nos quais se trata de equipar o aluno com o saber já acumulado
naquela área de estudo. Preparar boas aulas não é o mesmo que pesquisar; se é
preciso ler, informar-se, planejar, isso não significa que quem assim procede
seja um investigador desbravando as fronteiras do conhecimento. Por vezes, podem
coincidir na mesma pessoa um ótimo pesquisador e um excelente professor; mas
isso é raro, e é injusto exigir que seja sempre assim. Deveríamos valorizar a
figura do bom professor, empenhado em realizar seu papel da melhor forma
possível. Disso, seguramente, faz parte a busca de aperfeiçoamento por meio dos
cursos de pós-graduação; esses professores deveriam ser incentivados, e não
punidos -é o mínimo que se pode pensar.
[continua em outra mensagem]
Escrito por Simão Pedro às 11h42
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